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Marnus

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A minha primeira visão da terra foi feita através da água. Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar. (...)

Oscilo e flutuo nas pontas sem ossos dos meus pés atenta aos sons distantes, sons para além do alcance dos ouvidos humanos, vejo coisas que são além do alcance dos olhos. Nasço cheia de memórias da Atlântida. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguém perturbado por recordações, corto o ar a passos largos com largos golpes de barbatanas e nado através de quartos sem paredes. (...)

                                                                                           Anais Nin - A casa do incesto


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Eu amava a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-me através dos obstáculos. (...)

Movia-me dentro da cor e da música.(...) Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-desejo misturando-se, tocando, afastando, vagueando no abismo infinito da paz.(...)

Sentia apenas a carícia de mover-me - de passar para um outro corpo - absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar da seda.

Andando sem consciência, movendo-me sem esforço, numa corrente de água e de desejo, respirando num êxtase de dissolução.

                                                                                     Anais Nin -  A casa do incesto

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Vou deixar-te levar-me até à fecundidade da destruição. Por isso me atribuo um corpo, um rosto e uma voz. Eu sou-te como tu me és. Cala o fluxo sensacional do teu corpo e encontrarás em mim, intactos, os teus medos e as tuas penas. Descobrirás o amor separado das paixões, e eu descobrirei as paixões privadas do amor. Sai do papel que te atribuis e descansa no centro dos teus verdadeiros desejos. Por um momento deixa as tuas explosões de violência. (...)

Por uma hora serás eu; ou antes a outra metade de ti que tu perdeste. O que queimaste, partiste, estragaste encontra-se entre as minhas mãos. Eu sou a guarda de coisas frágeis e preservei de ti o que há-de ser indissolúvel.(...)

Apanhei e juntei todos os fragmentos. Devolvo-tos. Correste com o vento, dispersando-te e dissolvendo-te. Eu corri atrás de ti como tua sombra, recuperando tudo quanto semeaste no fundo dos cofres. (..)

Eu era a chama incolor do teu sopro, o teu sopro revolvendo o mundo. Adoptei a tua aparência visível e através de ti deixei a minha marca no mundo. (...)

                                                                                                Anais Nin  - A casa do incesto

Espelhos

Estou doente da persistência de imagens e espelhos. Eu sou uma mulher com olhos de gato siamês que por detrás das palavras mais sérias sorri sempre troçando da minha própria intensidade. Sorrio porque presto atenção ao OUTRO e acredito no OUTRO. (...) Rio-me, não porque o riso se adapta ao meu discurso, mas porque ele se implica nas correntes do que eu digo.

                                                                                   Anais Nin - A casa do incesto

Feita para dançar

(...)
É indo devagar
que o longe se torna perto..
mas a ânsia de chegar
põe-me o passso mais aberto...
(...)
e, mal faço um gesto,
abraço alguém!

Dizem que quem tem esp'rança
algum dia há-de alcançar,
mas às vezes já me cansa
este tempo de esperar..
e descubro por vingança
que fui feita pra dançar..
mas se não começa a dança
sou capaz de me zangar,
que a rosa já foi criança
mas depressa há-de murchar!

Quem semeia ventania
há-de colher temporais,
mas eu semeio alegria
pra colher um pouco mais!!!

                                  Dazkarieh

Ainda (in)desistências

Sou um mar de dúvidas pescado pela tua rede aberta de não saber, do não viver as as coisas que me vão na alma; (…)

 

Tu sabes, Tu tens a certeza que nada é o que é e, ainda assim, confio porque me foi ensinado; porque a alternativa é demasiado dolorosa.

 

(...) e eu a acreditar , segurando as entranhas com a mão direita, enquanto a esquerda segura o copo e o cigarro. (...)

 

Devoro o meu pulso esquerdo para matar a fome e para que pare de escrever, mas esqueci-me que sou destro. Talvez não quisesse mesmo parar de escrever. Não me posso assim iludir à primeira quanto aos meus intentos.(…)

A memória inexistente de um futuro próximo oferece-me um cansaço antigo e olhas pela primeira vez o tecto a reflectir a luz artificial no baço dos teus olhos. Aí não há cor. O que fazes tu a escrever sem cor o que te rodeie? (…)

Mas não é isso que quero. Quero que te vires para aqui, enquanto olhas para acolá. Depois tens ainda isto e aquilo e eu sou só uma praia de areia fina, branca como a neve com que tanto sonhas. Eu sou o sonho ao dobrar da esquina do desejo e tu, meu brinquedo predilecto de um sonho que vou inventando ao correr do tempo.

A certeza que a doce sensação que o abismo oferece à existência só existirá enquanto o percorrer pelo rebordo. (…)

                                                                     Alexandre Valinho - Adaptado de As bruxas - Baladas da varanda fria

...

Tal como só temos consciência da parte superficial do espírito dos outros, também só temos consciência da parte superficial dos seus comportamentos. Vemos a parte cortês, a parte pública, e só podemos especular quanto ao que existe por baixo. Mas de um modo geral, se a parte superficial é convencional e bem educada, assumimos que o resto também o é. Como é que podemos assumir que eu secreto de uma pessoa é igualmente convencional e bem educado? (...) Não o faremos por nos perguntarmos a que acções nós próprios poderiamos ser levados pelas nossas paixões? Se tivessemos garantido o segredo mais absoluto (...) 
 
                                                                                  A igreja das meninas mortas - Stephen Dobyns

Inconsequentes marujos

(...)
Canções de embalar em noites semi-frias, longas porque se iniciam. Promessas vãs, firmadas com o intuito de chegar às mais frágeis formas de sentir. (...)
O afago solitário da mão que vai percorrendo o meu corpo.
O brilhar de olhos porque sim.
A calçada branca que me conduziu de novo, rumo à esperança de existir, de ser mais um pouco para além de mim.
(...)
Os dedos que cruzaremos um dia terão essa força inútil contra as marés já definidas.
Teremos de reinventar um outro território paralelo a este para que a gravidade não se manifeste.
(...)
Seja como for, estamos virados para o infinito, amparados pelos amigos, em breves abraços de distracção.
(...)
As bruxas reúnem-se em roda aberta ao infinito e o Universo em implosão és tu. 
(...) 
Já não falas
não sussuras os medos que te cobrem o corpo triste e os gritos estão do lado de fora do edificio onde não chovem punhais. Rodopias na vertigem de ser mais um pouco e a esperança é bebida de chofre, num travo amargo de existência dogmática.
A calçada branca pontuada de negro sobre os pés e
não és crente,
não és nada para além dos passos que te arrastam para o veículo de fuga.
(...)
Enfim repouso na certeza que não sou, dormindo no corpo que não é meu.
Acredita em ti e verás que a verdade é a realidade que tu constróis. Mas tu sabes tudo desde o inicio da noite. Só não queres crer na Verdade, aquela que te penetra a carne sangrenta uma vez mais.  
 
                                                 Alexandre Valinho - As bruxas - Baladas da varanda fria
 

O espírito da carne

teu corpo
escultura de carne apetecida
que me leva a paixão
me anula a razao
suicida

teu corpo
etérea matéria de sangue
grão de espuma encarnado
P'lo amor devorado
exangue

teu corpo
alfa do meu existir total
cristo de marfim impoluto
obra do ser absoluto

sensual

Paulo Bragança do álbum "Amai"

..

Pareceu um gesto pensado, nem exactamente estudado nem exactamente expontâneo - o gesto de um homem que não sabe muito bem quem é e por isso assume um gesto emprestado, um gesto que considera adequado à ocasião.
 
                                                                     A Igreja das meninas mortas - Stephen Dobyns

Resumidamente..

-A educação tem de ter uma consequência. Geralmente essa consequência é vista como uma capacidade acrescida de ganhar dinheiro. Isso é uma quimera ligada a outra quimera: o crescimento ilimitado. Para mim a consequência da educação tem de ser responsabilidade e mudança.
- Por mudança entende revolução?
- Essa é uma palavra mélodramática. Entendo responsabilidade pelo mundo. Históricamente, vemos uma fracção da população a aproveitar-se da maioria, transformando-a num rebanho de consumidores ignorantes. As pessoas trabalham em empregos sem significado nem objectivo para comprarem roupas, carros e brinquedos que acreditam capazes de as tornarem felizes. Endividam-se, tornam-se uma versão de assalariados-escravos, e procuram distração na violência e eventos desportivos. A educação é minimizada, as artes são desacreditadas. A alternativa é uma sociedade que valoriza os seus membros igualitariamente, uma sociedade que assume a responsabilidade pelas pessoas e age com base nesse sentido de responsabilidade, uma sociedade que trabalha no sentido de diminuir a ganância, a ignorância e os instintos mais básicos dos seus participantes, em vez de os encorajar.
- Chama a isso marxismo?
- Encontramos muitas dessas ideias em Marx, mas tal como a teoria da evolução passou além de Darwin, também a teoria da economia passou além de Marx.
- Mas não ensina Marx?
- As ideias dele foram o começo. Poderá argumentar que essas ideias existem igualmente no Novo testamento. A nossa missão é preparar os jovens para o século XXI... Uma tarefa bem mais complicada do que simplesmente ensinar o Marxismo.
 
                                                                                                     A Igreja das meninas mortas - Stephen Dobyns

..

(...)
I serve my head up on a plate.
Its only comfort, calling late.
Cuz theres nothing else to do..
(...)

Like the naked leads the blind,
I know Im selfish, Im unkind.
Sucker love I always find,
Someone to bruise and leave behind.
 
Sucker love, a box I choose.
No other box I choose to use.
Another love I would abuse,
No circumstances could excuse.

All alone in space and time.
Theres nothing here but what heres mine.
Something borrowed, something blue.
(...)

                                   Every me and every you - Placebo

Auto boicote

I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay!
But I know that it's no use,
That you've already
Gone away ..

Misjudged your limits..
Pushed you too far ..
Took you for granted,
I thought that you needed me more..

Now, I would do most anything
To get you back by my side..
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
 
                  Boys don't cry - The cure

.

A liberdade é uma dádiva tão rara que  se nos torna incompatível lidar com ela. 

Asas de penas

Tornam-nos mais resilientes, mas não mais resistentes.

muralhada

As muralhas erguem-se sempre mais alto, porque há a necessidade de defesa, teórica e prática. As muralhas desmoronam-se quando uma distracção, talvez propositada, se converte em abalos sísmicos a grande escala. O sorriso vem acompanhado de subtis afagos de pele, de beijos de lábios molhados, de promessas vãs sem sentido. Os pensamentos sérios poderão sempre tornar-se pesadelos, problemas, frustrações constantes, daquelas que, felizmente, adormecem de quando em vez para que o guerreiro possa descansar e preparar-se para nova luta.
Os olhos vermelhos de lágrimas a olharem por cima de um lábio trémulo, de súbita lucidez. Tinha vontade de te dar um enorme abraço de reconforto, de amizade extrema e respirar fundo, para que sentisses a força do meu peito, o porto de abrigo, protector de uma tempestade crónica, que será a tua vida. Não dou porque te tenho de manter na distância de musa.
 
                                                                                                                       Viagens - Musa in Os homens não choram de dia

3,4,5 Setembro

Não pretendo com isto atribuir-lhe qualquer espécie de culpa especial pelo que aconteceu, embora houvesse quem argumentasse que se ele fosse da terra teria sido mais circunspecto. Talvez haja alguma coisa no facto de ser de fora que leva uma pessoa a agir sem esse sentido de investimento que se poderia encontrar em alguem com ligações mais estreitas à comunidade.
 
                                                                            A igreja das meninas mortas - Stephen Dobyns

Sem Letra?


Lembro-me de ti quando ainda era um sonho,
Voar, chorar, triste, risonho.
Percorrer estradas, perder de vista,
Vida incerta, palhaço artista.
Luzes, cem palcos, adormecer...
Olhar para as crianças, senti-las crescer,
Dançar na noite, dia a nascer...
Poesias, chamas, podes crer!
Destino sem rumo, incertezas,
O futuro na chama das almas acesas,
Abraça-me, ri-te, dança comigo...
Qual é o segredo de perder um amigo?
Vozes do silêncio, olhar abandonado,
Tocar e sorrir, baile e afado,
Lembro-me de nós crianças...
Fantasias, divagámos Andanças!

Pés... descalços no pó, alucinados,
Encontros do umbigo apaixonados,
Mazurkas no fogo, contradanças,
Camponesas, falinhas mansas...
Tocas-me na alma, manifesto da verdade,
A vida é uma revolta, realidade!
Olha o silêncio a brilhar,
Segreda-me no ouvido que o Mundo não quer acabar...

Mazurkas... que te cegam o fundo do coração,
Gigante segredo da tradição,
Procuro no teu ventre inspiração,
Portas, suspiros, abrigos, traição...
Este é o momento que te vou deixar,
Mundos, caminhos por partilhar,
Saudade, lágrimas de coragem.
Festa é festa, amigos boa viagem!
Tocar no baile e ver o mundo a dançar,
Suavidade, dança sem saltar,
Trocar sorrisos de baixo pra cima...

Fim do Mundo, cego e mudo...
... mãos cheias de nada, Alma cheia de tudo!

                                        In  As ruas da minha casa

Ousadia não acolhida..

Não vou procurar quem espero
se o que quero é navegar..
pelo tamanho das ondas
conto não voltar..

Parto rumo à primavera
que em meu fundo se escondeu,
esqueço tudo do que sou capaz..
hoje o mar sou eu!!!

Esperam-me ondas que presistem,
nunca param de bater..
Esperam-me, homens que desistem,
antes de morrer..

Por querer mais que a vida
sou a sombra do que sou..
e ao fim não toquei em nada
do que em mim tocou!!

eu vi...
mas não agarrei...

parto rumo à maravilha,
rumo à dor que houver pra vir,
se eu encontrar uma ilha,
paro pra sentir,
e dar sentido à viagem..
pra sentir que eu sou capaz,
se o meu peito diz coragem,
volto a partir em paz!

eu vi...
mas não agarrei

                   Capitão romance - Ornatos Violeta

Aprendizagem

...se antes de cada acto nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.

                                                                       José Saramago - Ensaio sobre a cegueira

...

(...)
E as flores mais belas bebem as minhas lágrimas
Tornando-se em tons cinzentos de um preto e branco
Que solto rastejando em suspiros venenosos
(...)
Onde as explosões de rugas marcam carências
Que os meus desejos rogam e invocam nesta gruta
(...)
Pela mão de um tempo morto que leio desfocados
Aperto as minhas mãos num nada tão sólidas e frias
Arrefecendo-me o corpo mas nunca a alma
(...)
                                             Henrique fernandes in Não desisto de mim

Coadjuvante


(...)
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar

não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
(...)
não construo, imagino
(...)
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...

                    José Eustáquio da Silva

Quanto mais amada mais desisto


(...)
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
(...)

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
(...)

                                                     Natália Correia, in "O Dilúvio e a Pomba"

Nop..

(...)
true, in wonderment..
is it hopeless ecstasy i want?

                          Jackie-o Motherfucker in Hey! Mr Sky

fool

It begins with a whispered voice.

Serpentine, the song threads through her days and her thoughts, beckoning.

Come...come...come....

"Where?" she asks, curious, but there is no response.

She ignores the summons, until one day that siren song unexpectedly explodes and fills her to the brim. Its pulse is undeniable.

"Where?" she asks again, and this time the steady beat of her heart is the response.

(...)

                                                                                                     Shadowscapes tarot from the art of Stephanie Pui-Mun Law

 
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